Guia · Governança e segurança de IA

ISO/IEC 27090 na prática

A primeira norma da família 27000 dedicada à segurança de sistemas de inteligência artificial. Este guia resume o que ela cobre, quais ameaças cataloga, como encaixar no que você já opera com a 27001 e a 42001, e por onde começar.

ISO/IEC 27090:2026

Cybersecurity — Artificial intelligence — Addressing security threats and compromises to AI systems

Publicação
14 de outubro de 2026, 1ª edição
Comitê
ISO/IEC JTC 1/SC 27, o mesmo da 27001 e da 27002
Natureza
Orientações técnicas. Não é sistema de gestão e não certifica organizações
Para quem
Qualquer organização que desenvolve ou apenas usa IA, inclusive IA de mercado
No Brasil
Ainda sem versão ABNT NBR

Nada do arsenal antigo foi aposentado

Hardware, rede, software e pessoas continuam atacáveis, e a própria norma lembra que proteger a pilha de software costuma ser o investimento mais eficiente. A IA soma três características novas a essa base.

  • O comportamento vem dos dados

    Quem mexe nos dados de treinamento mexe no modelo. Com aprendizado contínuo, o uso de hoje vira o treino de amanhã.

  • O erro não aparece

    É difícil explicar por que um modelo respondeu o que respondeu. Um modelo comprometido costuma parecer normal até o dia em que falha.

  • Ataque por canal legítimo

    Prompts, consultas à API e documentos do RAG chegam por interfaces válidas. Firewall e WAF continuam necessários, mas não enxergam isso.

O detalhe que diz tudo: a norma foi escrita pelo SC 27, o comitê de segurança da informação, e não pelo SC 42, o de IA. Por isso ela fala em tríade CID, avaliação de riscos e controles da 27002 por número. Segurança de IA é segurança da informação: muda o objeto protegido, não a profissão.

O documento em uma tela

Cada tipo de ataque é descrito sempre no mesmo formato: descrição, falhas resultantes, detecção e mitigação. Ninguém precisa decorar o catálogo, só saber onde procurar.

  1. Cláusulas 1 a 4Escopo, referências (ISO/IEC 22989 e 23053), termos e abreviações.
  2. Cláusula 5Como pensar: controles da 27002 selecionados por risco, programa de governança de IA, zero trust, engenharia, cadeia de suprimentos, threat modelling e red teaming.
  3. Cláusula 6Os tipos de comprometimento, um a um, e medidas que valem para vários deles (6.11).
  4. Cláusula 7Mitigação como processo: conflitos entre defesas, continuidade, deterioração no tempo, logging, ambiente de desenvolvimento, filtragem, throttling e tamanho do modelo.
  5. Anexos A, B e CMapa das ameaças sobre o ciclo de vida e os ativos (Figura A.2), versões de IA de ataques convencionais e aprendizado federado.

Os 12 tipos de comprometimento

Os exemplos que a norma organiza nas Tabelas 1 e 2. São ponto de partida, não lista fechada: a avaliação de riscos continua mandando. Os marcados com “sem atacante” podem acontecer só por descuido ou pelo próprio comportamento do modelo.

TipoO que aconteceIA generativaIA preditiva
Envenenamento de dados6.2Dados indesejados entram no treino e degradam o modelo ou plantam uma porta para depois.SimSim
Evasão6.3Entradas levemente alteradas fazem o modelo errar de propósito.NãoSim
Inferência de pertinência6.4Pelo comportamento do modelo, alguém descobre se um registro estava no treino.SimSim
Exfiltração de modelo6.5Milhares de consultas válidas viram dataset para treinar um clone funcional.SimSim
Inversão de modelo6.6As respostas são usadas para reconstruir, aproximadamente, atributos dos dados de treino.SimSim
Envenenamento direto do modelo6.7O próprio modelo, o pipeline ou a arquitetura são adulterados, sem passar pelos dados.SimSim
Prompt injection6.9Instruções escondidas na entrada, direta ou vinda de página, e-mail ou documento, mudam o comportamento.SimNão
Saída sensível6.8sem atacanteA resposta expõe informação confidencial memorizada ou presente no contexto.SimNão
Saída com ataque de injeção6.10sem atacanteA resposta carrega payload, como XSS ou SQL, para o sistema que a consome.SimNão
Roubo direto do modeloAnexo BOs pesos são levados do ambiente de desenvolvimento ou de produção.SimSim
Vazamento de dados de treinoAnexo Bsem atacanteAcesso indevido ao conjunto de treinamento.SimSim
Vazamento de entradaAnexo Bsem atacanteOs dados que usuários enviam ao modelo perdem a confidencialidade.SimSim

Tabela condensada e reescrita pela Akantos a partir da classificação da norma.

Prompt injection

O risco mais presente para quem usa LLM e agentes. As defesas reduzem, mas não zeram: separar instruções de dados, tratar conteúdo externo como não confiável, filtrar saídas e, principalmente, fazer a aplicação, e não o modelo, decidir o que cada ferramenta pode executar.

Exfiltração de modelo

Nenhuma falha de código é explorada e cada requisição é válida. Só o padrão agregado de consultas denuncia o ataque. Resposta: throttling, autenticação por requisição e menos informação na saída.

Backdoor no modelo

O modelo responde normal até receber o gatilho. Hash e assinatura provam que o artefato não mudou e de onde veio, mas não que está livre de comportamento malicioso. Ambiente de desenvolvimento protegido é obrigatório.

Zero trust aplicado a IA, com RAG e agentes

A cláusula 5.3 parte dos princípios de zero trust do controle 8.27 da 27002 e os traduz para as arquiteturas que as empresas realmente usam em 2026.

  • Dados de treinoTrate todo dataset como possivelmente envenenado: valide origem e integridade.
  • Acesso ao modeloAutorização por requisição de inferência, não só por usuário logado.
  • RAGCada documento recuperado passa por autenticação e autorização próprias.
  • AgentesCada ação verificada, com acesso just-in-time e permissões que expiram.
  • MonitoramentoLinha de base de uso; desvio de padrão pode ser abuso em andamento.
  • Fronteira de promptsToda entrada é validada e sanitizada, venha de onde vier.

Encaixa no que você já opera

A 27001 pergunta se a segurança é gerida. A 42001 pergunta se a IA é governada. A 27090 responde quais ameaças técnicas considerar e como detectá-las e mitigá-las. Ela alimenta os dois sistemas de gestão.

Tema da 27090Âncora na 27001/27002Âncora na 42001 e normas de IA
Seleção de controles27002, cláusulas 5 a 8, por riscoComplementa o SGIA
Avaliação de riscos27001, 6.142001, 6.1 e ISO/IEC 23894
Governança de IAPolíticas e papéis do SGSI42001 (implementação) e 38507 (conselho)
Desenvolvimento seguro e zero trust27002, 8.25 a 8.30, em especial 8.27ISO/IEC 5338
Cadeia de suprimentos27002, 5.19 a 5.23 e 8.3042001, A.6.2.3 e A.6.2.6
Logging e monitoramento27002, 8.15 e 8.16Operação do SGIA

No SGSI: inclua modelos, datasets, pipelines e APIs no inventário de ativos, leve os tipos da cláusula 6 para a avaliação de riscos e registre o tratamento na Declaração de Aplicabilidade, inclusive controles específicos de IA fora do Anexo A.

Quatro confusões comuns

  • “Dá para certificar a empresa na 27090.”

    Não dá. Ela é orientativa. Certificáveis são o SGSI da 27001 e o SGIA da 42001, que podem usar o conteúdo dela. Desconfie de selo “ISO 27090”.

  • “Só preciso me preocupar se eu treino modelos.”

    Boa parte dos comprometimentos acontece em operação. Quem só consome IA de mercado também está no escopo.

  • “Ter a 42001 já garante que o modelo é seguro.”

    A auditoria da 42001 avalia o sistema de gestão, não a resistência técnica do modelo a ataques. As duas camadas se completam.

  • “Seguir a 27090 comprova o EU AI Act.”

    Ajuda muito no Artigo 15 (robustez e cibersegurança), mas não é norma harmonizada: é referência técnica, não comprovante.

Por onde começar

Cinco passos, e o último realimenta o segundo. Defesa de IA é processo contínuo, não projeto com data de fim.

  1. Inventariar

    Liste os sistemas de IA e como são usados, inclusive os não oficiais. Shadow AI entra no inventário.

  2. Avaliar riscos

    Use os tipos da cláusula 6 como lista de partida, sistema por sistema, com a sua matriz de riscos.

  3. Tratar e registrar

    Leve os controles para a Declaração de Aplicabilidade ou para o SGIA, cada um com dono e justificativa.

  4. Modelar e testar

    Threat modelling a cada sistema novo ou alterado, e red teaming periódico em ambiente controlado.

  5. Monitorar e reavaliar

    Logs, métricas e revisão. Defesa de IA perde eficácia com o tempo (7.4) e o resultado volta para o passo 2.

Ponto de partida rápido: o inventário do passo 1 já costuma revelar ferramentas de IA em uso sem dono, sem avaliação de risco e com dados da empresa entrando nelas. É ali que a maioria das organizações encontra o primeiro risco real.

Fontes: ISO/IEC 27090:2026 e normas citadas; material de apoio da aula aberta “ISO/IEC 27090: a nova norma de segurança para sistemas de IA”, da TIexames (Prof. Rafael Batista, MSc, out/2026). Este guia é um resumo autoral e não substitui a leitura da norma. Publicado em 2 de novembro de 2026.

Quer saber onde a IA da sua empresa está exposta?

Inventário de IA, avaliação de riscos e política de uso, alinhados à 27001, à 42001 e à 27090. Ver Governança de IA